terça-feira, 12 de maio de 2009

Liberdade para alguém com dezesseis

Se eu fosse livre acordaria às seis da manhã num sábado. Enquanto todos estivessem dormindo, andaria descalça só pra sentir o granito frio nos pés e me enrolaria no cobertor, ouvindo música pra adormecer e acordar no meio da tarde. Se eu fosse livre dormiria de dia e faria as coisas de noite por que é sempre de madrugada que temos as nossas melhores idéias.

Se eu fosse livre, passaria o dia todo deitada na sacada e contemplando o céu, sentindo o vento passar por mim. Quando o sol estivesse se pondo, subiria no telhado, sentada, imaginando se ele iria chiar quando tocasse as águas do oceano. Se eu fosse livre moraria na beira do mar.

Se eu fosse livre, faria um doce e colocaria o meu nome. Sairia pela rua no fim da tarde, de moleton e camisa do meu irmão, os cabelos amarrados e languidos. E não olharia para mais ninguém, como se não fizesse parte desse mundo. Se eu fosse livre, iria ao cinema sozinha, e choraria no final de cada filme bonito, sendo ele triste ou não, pra compensar as lágrimas que eu não choraria pela minha vida. Se eu fosse livre nunca iria chorar na vida real.

Se eu fosse livre iria á festas com a cara amarrada e olhar distante só pra ver se alguém percebia e iria me achar interessante, atraindo assim apenas pessoas que valessem a pena conversar. Falaria muito palavrão e falaria tudo o que eu pensasse, sem me importar com nada por que tudo, na vida, passa depressa e só o que é novo desperta interesse. Eu dormiria sempre sem meias, com uma camiseta do pai e nunca dormiria com a barriga pra cima para não ter pesadelos. Se eu fosse livre, iria apenas sonhar.
Se eu fosse livre iria dormir sempre com as minhas amigas e beijaria os olhos delas antes de elas acordarem. Roubaria o vinho dos meus pais, faria o mesmo tipo de macarrão inventado, veria filmes de terror e fugiria de casa. E iria alegar, no outro dia, que tudo o que nós fizemos foi comer brigadeiro de colher. Se eu fosse livre faria um ritual do beijo, vinho e canela, pra ter boa sorte a cada começo de ano. E enterraria cada sonho numa caixa pra abrir muito, muito tempo depois.

Se eu fosse livre escreveria a minha vida, mesmo se ninguém fosse lê-la, e escreveria tudo o que eu pensasse, deixando tudo jogado por aí, numa biografia inconstante, como eu, como o vento. Interpretaria letras de músicas inteligentes para aplicá-las no dia a dia, leria todas as instruções, mesmo que não fosse segui-las, leria tudo o que encontrasse, mas não leria os livros de auto-ajuda da minha mãe. Se eu fosse livre tocaria todos os instrumentos, e ouviria sinfonias, valsas, odes, marchas e tarantelas, tentando imaginar qual música serviria perfeitamente para a trilha sonora da minha vida.

Se eu fosse livre, esperaria uma aventura a cada esquina e sobreviveria, consumindo meus sonhos. Iria viajar pelo mundo, conhecer todos os países, todos os climas e todas as cores, se eu fosse livre iria voar de balão. Iria olhar tudo o que eu pudesse e ouvir tudo o que eu conseguisse, usar os meus cinco sentidos ao máximo e às vezes, andaria por uma ponte, me sentindo tão plena e madura que acharia que poderia voar, ou encontrar a maior resposta para a melhor pergunta.
Se eu fosse livre não iria brigar com o meu irmão mais novo, iria apenas ignorá-lo e iria sair para dançar de noite, voltando pra casa só de manhã. Se eu fosse livre eu iria dançar. Dançar na chuva, dançar na pista, dançar na areia, dançar no apartamento dos amigos, dançar na sacada, dançar no telhado, dançar na sala de estar, com um vinho na mão, e os Lp´s antigos do meu pai tocando na vitrola que mal pegaria.

Se eu fosse livre eu não iria ter medo de sofrer, iria entender que as pessoas entram e saem das nossas vidas e que nem por isso devemos amá-las menos. Se eu fosse livre, imitaria Shakspeare. Moraria sozinha, e seria boazinha e malvada em tempos tão pequenos que iria até assustar, mas nunca deixaria de ser eu mesma. Se eu fosse livre, seria como se não fosse e manteria o ritmo na música dissonante.

Se eu fosse livre me apaixonaria pela lua cheia e não iria chorar porque saberia que por mais que estivesse dilacerada por dentro, não seria para sempre. Se eu fosse livre, conseguiria abraçar meus pais, sem cair no choro por ser uma coisa tão rara. Eu seria como uma boneca viva, mas com os olhos em chamas. Deitaria na cama de noite e não conseguiria dormir pensando em tudo o que eu tinha pra viver. Sairia de casa de madrugada só pra caminhar no ar frio da noite e me sentir viva. Se eu fosse livre beijaria na chuva.

Se eu fosse livre faria teatro e me apaixonaria pelos meus professores. E não iria sofrer por ninguém, nem por mim. Iria dirigir tão mal, mas falar tão bem. Falar muito, de política, de novela. Se eu fosse livre usaria meus olhos como se fosse enfeite, para o corpo e para a alma.
Se eu fosse livre impediria que a vaidade fosse a pele que protege a alma e amaria, sempre. Cada dia de sol, cada dia sem sol. Cada onda do mar, cada onda de rádio, cada sensação, cada momento, cada toque, cada medo por que seria eterno. Se eu fosse livre o eterno e o inconstante seriam a mesma coisa e no fim de tudo, se eu fosse mesmo livre, teria valido a pena.