quinta-feira, 22 de abril de 2010

Uma noite qualquer...

Era de noite. Sentada sozinha no quarto, ela digitava freneticamente no teclado, vendo as letras descerem na tela do computador. Era uma noite de sexta-feira e teria prova no outro dia. Mas ela estava cansada de tudo. Apenas de calcinha e camiseta, o frio sensibilizava sua pele e ela se surpreendia com alguns arrepios esporádicos. Ela digitou:
- Certo, acho que vou sair. Sabe como é, fugir pelo telhado, ir ao posto, comprar um cigarro...
A resposta veio quase que instantânea.
- Tá...
Ela não respondeu.
- Como assim?
Ela suspirou. E digitou sem olhar para a tela.
- Sei lá, to a fim de ir comprar oras... A fim de fazer algo no mínimo não convencional.
- Foge e vem aqui, mas não vai comprar cigarro.
Ora, o que ele estava pensando? Não era ele que tinha comprado a caixinha e jogado fora, e depois comprado outra novamente? Ela pensou nisso, mas antes que pudesse escrever, a tela apitou novamente.
- E você sabe que eu só fumo com você. Não quero que você faça isso sozinha, não quero que faça disso um hábito, não quero uma namorada viciada.
Ela passou os dedos nervosamente pelos cabelos e mordeu os lábios, olhando para o vazio, sem idéia nem vontade de responder.
- ...
O que ele estaria fazendo na casa dele? Como estaria vestido? O que estaria pensando? Será que ele tinha aquela necessidade de se sentir vivo de vez em quando, geralmente dos jeitos mais errados? Como ela tinha...
- Puxa vida... To te pedindo de coração... Por tudo o que a gente se esforçou a semana inteira.
Ela suspirou. Passou a mão pela clavícula e tocou a correntinha em forma de meio coração que ele havia lhe dado. Na verdade não tria graça fumar sozinha. Mas a lua cheia lá fora e a noite fria pediam algo boêmio como... isso. Um cigarro não faria mal. Não era como se drogar, ou sair pela noite sem rumo. Chegar em casa de manhã.
- Tudo bem, eu vou ver o que eu faço aqui, certo?
Esfregou uma mão na outra numa tentativa aparente de se aquecer. Mas na verdade era para descarregar toda a energia que ela andava guardando dentro de si mesma. Toda aquela loucura que ela guardava e que precisava soltar às vezes para que não explodisse e impregnasse tudo dentro dela. Talvez ela apenas se enfiasse debaixo do edredom, como uma boa menina. Talvez ela ficasse pensando nele até o sono chegar, como havia feito tantas noites antes.
Mas a noite estava fria e seca. Ventava. Ela queria andar pelas ruas, em meio à escuridão, sentir a tensão de fazer algo que não podia de novo. Ela não queria perdê-lo de jeito nenhum. Amava-o demais. Precisava dele. Mas algo dentro dela estava pulsando essa noite. Havia demorado um tempo para se manifestar. Mas sem motivos, hoje reclamava dentro dela, pedindo pra sair. E essa vontade estava ficando cada vez mais irresistível.
“Devo estar ficando louca...” ela pensou. Alisou novamente os cabelos com os dedos e os prendeu num coque, usando um palitinho japonês. Olhou firmemente para a tela, buscando uma resposta. Provavelmente não iria sair. Provavelmente ela faria tudo o que ele lhe pedisse. Qualquer coisa. Decidiu ir dormir. Fazer um cappuccino. Com conhaque. Será que ela era uma viciada? Será que estava se tornando uma?
Saiu na sacada, a lua iluminando seu rosto preguiçosamente. Lá fora o mundo chamava por ela. O som do mundo, gente vivendo mais do que ela naquela noite. Era tão insuportável... Antes de dormir, entre os cobertores de libélula da sua cama, ela virou-se para o lado e pensou num trecho de uma música, uma música que lhe veio a cabeça: “Te incomoda que eu fale assim? O que mais você quer mudar em mim? Você me quer incondicionalmente ou me quer mas um pouco diferente?”
É. O que ele esperava dela, afinal?

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